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STRIPTEASE, 2003
Comédia do Absurdo, inspirada na obra Striptease,
de Slavomir Mrozek
Direção
Júlio Cruccioli
Com
André Amaro e Fabiana Tenório
Iluminação
Cláudio Lago
Fotos
Crystiano D’Moura
Esta montagem do Teatro Caleidoscópio, com direção
de Júlio Cruccioli, apresenta dois personagens
arquetípicos, cujas atitudes – opostas
e complementares – traduzem o comportamento do
ser humano diante de situações impeditivas.
Os atores André Amaro e Fabiana Tenório
interpretam um jovem casal que é impelido por
uma força estranha para dentro de um recinto
onde há apenas uma porta e dois bancos. Os dois
personagens, iguais na aflição, no medo
e na dúvida, agem porém como contrários.
Forçados a enfrentar o desconhecido, buscam uma
saída, cada qual utilizando o seu método
característico de raciocínio.
Ele é um tipo passivo, que acredita na "liberdade
interior” e defende sua dignidade pessoal a fim
de manter o controle da situação. Ela
é pragmática e acredita na “liberdade
exterior”. Os dois, porém, são dominados
pela “coisa”, uma luz que pisca e os obriga
a tirar a roupa, numa espécie de desnudamento
necessário para o jogo de adivinhações.
A montagem do Teatro Caleidoscópio inclui trechos
de outros autores do teatro do absurdo como Eugène
Ionesco, Samuel Beckett, Maruxa Vilalta, Karl Valentin
e Marcelo Perrone. Com isso, a direção
procura valorizar a argumentação dos personagens
sem esvaziar a essência do texto de Mrozek.
A trama se desenvolve em todo o teatro.
Crítica sobre a peça
Crítica de Reynaldo Domingos Ferreira, jornalista
e dramaturgo
O Teatro Caleidoscópio, que fica aqui no aprazível
Sudoeste, está com belo espetáculo em
cartaz. É a peça SRIPTEASE, do polonês,
Slavomir Mrozek, que se filia à corrente do teatro
do absurdo, lançado nos anos sessenta, pelo romeno,
radicado em Paris, Eugène Ionesco, figura simpática
e bem humorada, que conheci durante palestra realizada
na UnB. Originário, portanto, dos países
dominados pela extinta União Soviética,
o teatro do absurdo se sustenta no recurso da metáfora,
isto é, do sentido figurado das palavras, para
criar situações irônicas –
à influencia da filosofia de Kierkegaard –
sobre fatos que os autores não podiam dramatizar
ante as injunções politicas em que viviam.
Foi esse recurso que usei também ao escrever,
nos anos de ditadura militar, meu poema, “Elegia
ao Chapéu”, premiado em São Paulo.
Na peça de Ionesco “Jacques ou a Submissao”
– talvez uma das mais didáticas do receituário
do absurdo – toda a família se concentra
em torno do filho mais velho, Jacques, para pressioná-lo
a, por exemplo, comer batata doce. À luz desse
tema tiram-se ilações as mais diversas
sobre o autoritarismo que se exerce, tanto no âmbito
familiar, como na esfera politico-social, numa linha
de ironia e humor, sem resvalar, contudo, para o escrachado
besteirol, do origem americana, usado na televisão.
Eis por que, diante do mundo globalizado em que vivemos,
cada vez mais totalitário, o receituário
do teatro do absurdo continua na ordem do dia, mobilizando
opiniões dos aficionados de um teatro de gosto
mais apurado. Em STRIPTEASE, Mrozek repete mais ou menos,
sem profundidade porem, o que fez Honoré de Balzac
no seu romance “As Grandes Ilusoes”, criando
dois personagens, que refletem sua própria personalidade.
Ele se “despe”, portanto, em cena, expondo
como reagem seus lados masculino e feminino diante de
circunstâncias político-impeditivas das
aspirações libertárias. Melhor
dizendo, da aspiração ao direito individual
da livre escolha. Enquanto os personagens de Balzac
se encontram, pela primeira vez, numa biblioteca, os
do dramaturgo polonês se conhecem num logradouro
publico depois de realizarem ambos viagem no mesmo trem
no percurso entre duas cidades, que se denominam SLAVOMIR
e MROZEK, nome e sobrenome do autor. Ambos procuram
o mesmo endereço numa denominada rua Beckett
– homenagem ao mais badalado autor do teatro do
absurdo – e daí, as coincidências
vão se marcando e se acentuando de forma que
a platéia, ao mesmo tempo em que se diverte às
pampas com as confusões criadas com a procura
da identidade dos dois, não deixa também
de perceber que, se o lado feminino do autor é
mais intuitivo, atirado e exasperado, o lado masculino
é conservador, prudente, acomodado e acovardado.
Como o texto de Mrozek é curto, os criadores
do espetáculo do Teatro Caleidoscópio,
para reforçar suas características, decidiram
enxertá-lo, no que fizeram bem, com trechos de
outras peças do mesmo naipe, como “A Cantora
Careca”, de Eugène Ionesco, “Esta
Noite Juntos Amando-nos Tanto”, de Maruxa Vilalta,
“Ida ao Teatro”, de Karl Valentin, “Dias
Felizes”, de Samuel Beckett e “Max e Claire”,
de Marcelo Perrone. Assim tem-se espetáculo de
mediana duração, o que parece pouco, entretanto,
diante de suas reais qualidades. A primeira delas, é
a direção de Julio Cruccioli, que consegue
equacionar de maneira notável o pequeno, mas
aconchegante espaço do teatro, tirando proveito
principalmente de um painel espelhado ao fundo do palco,
no qual se reproduz e se efetiva o momento mais belo
e poético do espetáculo. As interpretações
de André Amaro e Fabiana Tenório valem
muitos aplausos porque além de responderem ambos
às pontuações da direção,
consegue cada um deles imprimir tom bastante pessoal
aos personagens que interpretam. Tudo o mais no espetáculo
– figurino, cenário, sonoplastia, adereços,
iluminação e material gráfico –
é de excelente qualidade. Eis, portanto, um espetáculo
que merece ser visto pelos caros amigos que gostam de
prestigiar o teatro que se faz em nossa cidade.
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