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A Farsa de Pixreals

PELEJA TEATRAL

Sérgio Maggio
Do Correio Braziliense

Em 04.11.04

O Teatro Caleidoscópio é uma casa inquieta de criação. Tão agitada que emenda um espetáculo ao outro, com processo de pesquisa e formatação diversos. Vai ser assim com A Farsa de Pixreals, montagem que estréia nesta quinta-feira e sucede a mostra comemorativa de dez anos de atividade teatral do espaço-companhia. Na nova montagem, o diretor André Amaro experimentou dramaturgia colaborativa. Reuniu seus atores, chamou convidados e pediu que todos trouxessem textos teatrais caros.

Em pouco tempo, estavam ali histórias e personagens paridas por gênios como Aristófanes, Albert Camus, Pirandello, Brecht, Oswald de Andrade, Nietzsche, Victor Hugo e Goethe. ‘‘As folhas eram colocadas no chão. Em movimento aleatório, os atores pegavam o texto e liam. Assim criamos uma atmosfera cênica e percebemos que a maioria das peças tinha questões sociais, poder, regimes totalitários como temática’’, lembra André Amaro.

Esse clima de laboratório resultou no texto final batizado de A Farsa de Pixreals. A peça é fábula que se debruça sobre o exercício de fazer teatro em tempos conturbados de paz. Mistura ficção e fatos reais (como a presença dos ratos silvestres que perambulam pelas áreas urbanas do DF disseminando a hantavirose). Mescla personagens consagrados na dramaturgia (Medéia, Arlequim, Pai Ubu) com originais, a exemplo de O Nada (pedinte com ponto de esmola na porta do teatro). ‘‘Nesse contexto, há dois seres estranhos que lutam para promover destinos diferentes para o teatro’’, observa André Amaro.

A dinâmica da montagem dá ao espectador a sensação de acompanhar a peleja desses seres antagônicos. Os primeiros 20 minutos começam na parte externa do teatro de bolso, localizado no Sudoeste. Ali, a Bilheteira, personagem extraída da obra de Alcione Araújo, começa a conduzir as ações. Durante os 80 minutos seguintes, o palco do teatro italiano vira espaço para a fictícia Pixreals - cidade maculada por males modernos.

Absorvido pelo novo projeto, André Amaro segue sem deslumbres a árdua tarefa de fazer teatro autoral em Brasília. Na semana passada, saiu com quatro prêmios da II Mostra de Teatro Sesc pela bem-sucedida montagem Cascudo (melhor espetáculo, direção, iluminação e atriz — Vanessa Di Farias). A peça, que recebeu destaque da imprensa nacional no Festival de Curitiba de 2002, tornou-se vitrine do Teatro Caleidoscópio. Na mostra comemorativa de dez anos, deixou a casa lotada. ‘‘É uma vitória, porque no início a gente chegou a encenar para platéia de três a cinco pessoas’’. comemora Amaro.

A sala cheia tem a ver com o trabalho de qualidade de Cascudo, montagem vibrante sobre a cultura popular, com ponto forte na pesquisa gestual sugerida na obra de Câmara Cascudo. ‘‘Fico lisonjeado, até porque isso acontece na comemoração de uma década desse teatro de resistência. O reconhecimento é bom, mas não há lugar para vaidades. Temos muito trabalho pela frente’’, anuncia André Amaro.

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