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Farsa de Pixreals
O TEATRO QUE NÃO É TIRA-GOSTO
Teatro Caleidoscópio brinda os dez anos
com portas escancaradas à interação
de todas as tribos
Chico Neto
Do Jornal de Brasília
Em 04.11.04
Fazer teatro exige arrebatamento suficiente para extrapolar
a festa da mídia e mergulhar fundo como o fez,
sem pensar muito, a emblemática Alice de Lewis
Carrol, ao entrar no buraco de um tronco e cair, em queda
livre, no nada irracional País das Maravilhas.
Essa viagem é o que comemora o Teatro Caleidoscópio,
ao celebrar, com a estréia de A Farsa de Pixreals,
dez anos de atividades.
O espetáculo, na verdade, é uma homenagem
ao teatro, fruto de fragmentos de diálogos "ordenhados"
aleatoriamente de mais de 30 autores. Nada a ver com colagem,
acentua o fundador e diretor do Caleidoscópio,
André Amaro. Trata-se, fundamentalmente, de uma
história de inquietações.
Jornalista e bacharel em Sociologia, André, antes
de tudo isso, é um homem envolvido com o fazer
teatral o suficiente para saber que a inquietação
é que dá corpo ao combustível mais
eficiente do teatro. "Geralmente as pessoas querem
o teatro como tira-gosto, para depois irem jantar",
resume. "Não fazemos teatro para isso. O teatro
é um encontro tão único que deve
propor alguma reflexão".
O Caleidoscópio, que hoje tem prédio próprio
no Sudoeste e funciona como espaço permanentemente
aberto a oficinas e a apresentações de outros
grupos, é um filhote bem-sucedido dessa inquietação.
Da trupe inicial, quem permanece no staff é a atriz
Lilian França. Mas o grande barato do Caleidoscópio,
cujo nome lhe cai como luva, é a interação
com quem faz teatro.
Salas do Teatro Dulcina e outros palcos – inclusive
o apartamento da atriz Paula Passos, onde foi montado
o monólogo A Órfã do Rei –
já foram cenários do Caleidoscópio
antes da criação da sede própria.
"Para a gente, a recompensa é mobilizar as
pessoas", resume André Amaro.
E esta é a função que o Caleidoscópio
tem cumprido com reconhecimento cada vez maior. Recentemente,
por exemplo, a montagem de Cascudo, que eles levaram também
para outras praças, arrebatou quatro prêmios
na II Mostra Sesc de Teatro Candango: melhor espetáculo,
melhor direção, melhor iluminação
e melhor atriz. Para quem se fundamenta na proposta de
que "o teatro surgiu para aproximar pessoas e provocar
a exaltação do que é urgente e positivo",
um golaço.
O Caleidoscópio não comporta pré-requisitos:
o movimento teatral é bem-vindo por si só.
A porta é aberta para quem aposta na pesquisa independente
e se dispõe a trabalhar com o corpo, como o templo
que ele é para qualquer ser humano. "Não
quero cair naquele lugar comum de que 'é difícil
fazer teatro', que 'patrocinador não existe', pois
minha necessidade é mais urgente do que o tempo
que espero", alinhava o diretor.
Não por outro motivo, André tem um quê
do flautista de Hamelin, aquele que, por onde passava,
ia arrastando inebriados com sua melodia. Assim se passaram
dez anos. E o Caleidoscópio, em vez de envelhecer,
a cada ano surpreende por mostrar uma nova face. Esse
imprevisível é que faz do teatro um irrecusável
caminho sem volta. • Voltar
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