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  (ESCAVAÇÕES) NO JARDIM DE MÔNICA
André Amaro apresenta três versões para texto da peruana Sara Joffré
 
Artes Marciais no treinamento do ator
Cesário Augusto

Atuantes em teatro têm utilizado algumas artes marciais asiáticas como instrumento para otimizar o seu vigor e ações psicofísicas em cena. Espalham-se hoje, em quantidade jamais vista, diferentes metodologias de treinamento convergentes a fins similares, a despeito dos vários propósitos das estéticas de montagem. Exemplos fortalecem a idéia de que o preparo para a atuação tem sido o mote para horas e horas de exercícios praticados em estúdios: o Método Suzuki, desenvolvido pelo recluso e subversivo Tadashi Suzuki na Vila de Toga, Japão, e suas treze maneiras de se deslocar baseadas no teatro Noh, já se tornou ferramenta acolhida em países como Inglaterra, Brasil (onde já fora utilizado pelo diretor Antunes Filho), Nova Zelândia e Austrália; o norte-americano Phillip B. Zarrilli vem, há mais de trinta anos, aplicando o yoga, t’ai chi ch’uan e kalarippayattu (praticada em Querala do Sul, Índia) mundo afora, buscando atingir no performer a sua “agência”, aqui denominada também prontidão; Jerzy Grotowski (1933-99), estipulando que “eu não enceno uma peça para ensinar aos outros aquilo que já sei”, paradoxalmente deixou legado de exercícios psicofísicos onde o canto, em sua execução, passava a ser cantado pela tradição mais do que o seria pelo(a) atuante, chamado pelo diretor e filósofo polonês “feitor” ou “fazedor”; Eugênio Barba, agora completando quarenta anos no comando do Odin Teatr, busca em práticas preparativas da Ópera de Pequim, do Teatro Kabuqui e dos rituais para-teatrais balineses elementos configuradores dos famosos barters – escambo de práticas –, objetivando ativar o nível “pré-expressivo” dos atendentes; o brasileiro-catalão Moncho Rodrigues opta pela marcial, mas nem por isto menos festiva, prosódia épica da cantoria de cordel nordestina; o pernambucano Antônio Nóbrega passa adiante sua indisfarçável tara pela capoeira em oficinas inesquecíveis para quem delas participou; o grupo campinense Lume campeia movimentos de samurais aplicados em exaustivas sessões de busca pela precisão técnica e pelos extraordinários “espirros” da organicidade cotidiana; o grupo paraibano Piolim atravessa nacionalidades e, mordendo o bolo pela beirada, dispara lá e aqui seu arsenal de rolamentos do judo e lutas com bastões do kendo, etc. Nunca se viu, mundo afora, tanta generosidade na troca de informações sobre o treinamento do(a) atuante; nunca se viu, mesmo no século passado, uma procura obsessiva em aperfeiçoar o comando psíquico e físico para a cena. Difícil equiparar época equivalente a tantos treinamentos para a o começo da partida.

Quando praticadas para o fim da “agência”, vigor, “foco”, “pré-expressividade” e “presença”, as Artes Marciais equacionam uma simples aritmética: rotina + disciplina = controle psicofísico. Richard Nichols, praticante de kendô e iai-do e atualmente professor do programa de mestrado da Universidade Estadual da Pennsylvania, EUA, aponta nove pontos emergentes do exercício contínuo das artes marciais no treinamento de atuantes:

1. Desenvolvimento do Foco (concentração);
2. Estar no momento: o ‘aqui e agora’;
3. O estabelecimento de imagens;
4. Focalização da energia com vistas à economia de ação/gesto;
5. Executar cada ação a seu tempo;
6. Expandir os horizontes da auto-imagem;
7. Desenvolvimento de um corpo flexível, controlado e equilibrado;
8. Unificação da mente e corpo;
9. Apreciação e desenvolvimento da disciplina;

Por foco entenda-se a visão periférica induzida pela sinestesia perceptiva do olfato, audição, tato e olhar implementados pela contínua prática das ações lentas e vigorosas do t’ai chi ch’uan, o qual também, junto ao yoga e sua sistemática respiração (pranayama) e posturas (âsanas), confere ao praticante a não-antecipação do momento, libertando-o de ansiedades, provendo-lhe a entrega ao fluxo de vários “presentes” intermitentes; um kata (seqüência fixa de ações com diferentes dinâmicas, utilizando chutes, socos e saltos) do karate-do exige, do(a) karateka (praticante) a imaginação de estar lutando com um(a) oponente pantomímico, porquanto invisível; a economia de ações encontra-se arraigada em posições específicas do kalarippayattu, como a vanakkam (execução precisa de passos e posições onde o controle da respiração é concomitante à execução das ações, as quais constituem posturas simples embora rigidamente amarradas em partitura); agir sem atropelar ou “acavalar” uma ação sobre a outra torna-se habilidade possível por meio da prática de combates com bastões e espadas do kendo; a expansão da auto-imagem refere-se ao destacar-se de si mesmo e observar mais do que se sentir observado, naquilo que em Querala do Sul, Índia, chamam meyyu kannakuka, cuja tradução do sânscrito veda, feita por Phillip Zarrilli, vem a ser “o momento de o corpo se tornar todos os olhos”; a flexibilidade, controle e equilíbrio já tornou-se um lugar-comum de todas as Artes Marciais Asiáticas, e citam-se aqui, novamente, à guisa de exemplo, as âsanas (posturas) do ha-tha yoga; quanto à unidade corpo-mente, tais práticas, por seguirem o princípio taoísta, falam a nós brasileiros, em boa Língua Portuguesa, de trabalho psicofísico, no qual o corpo e a mente são o(a) próprio(a) indivíduo atuante, ao contrário da afirmação cartesiana de que o corpo seria o instrumento do ator/atriz, e a mente o comando, ou vice-e-versa; por último, a disciplina envolvida na prática das Artes Marciais, mais do que precípua condição a seu aprimoramento técnico, promove a obtenção do domínio orgânico (ou psicofísico) deflagrador da liberdade de agir, criar e pensar em cena.

Frise-se estarem os nove pontos acima descritos voltados à preparação do performer, dançarino, ator ou atriz, aqui denominados pelo nome genérico de atuante. A perspicácia de nomes como Zarrilli, Grotowski, Barba, Nichols, Grupos Lume e Piolim, Antônio Nóbrega, Suzuki e Moncho Rodrigues está em trazer para a arena pré-expressiva – como assim o batiza adequadamente o Teatro Antropológico de Eugênio Barba e colaboradores a situação orgânica de extrema presença e controle psicofísico – práticas, filosofias e conceitos das Artes Marciais cuja função, no contexto histórico e geográfico de sua origem, vai desde o de ataque e defesa pessoal até a reverência a deidades. Assim, em seu treinamento para o começo da partida para a expressão, o(a) atuante objetiva a diagnose e resolução de problemas inerentes à sua deficiência técnica, o que demanda de imediato a ciência da imperfeição e prontidão para o aprendizado.
Cesário é ator e professor.


Bibliografia Recomendada:

BARBA, Eugênio; SAVARESE, Nicola. The secret art of the performer. London: Routledge, 1991, 272 p.

NICHOLS, Richard. Asian martial arts as a “way” for actors. In: ZARRILLI, Phillip (Ed.). Asian martial arts in actor training. Wisconsin: University of Wisconsin-Madison, 1993. p.19-30.

REVISTA LUME. Campinas: Unicamp, 1997.

SCHECHNER, Richard. Jerzy Grotowski (1933-1999). In: TDR - Turlane Drama Review, vol.43, no. 2 (T162), Summer, 1999. p.5-7.

ZARRILLI, Phillip (Ed.). Asian martial arts in actor training. Wisconsin: University of Wisconsin-Madison, 1993, 124p.


Legenda da foto:

Atuante Margaret Freeman executando âsana (postura) dinâmica, acompanhada por puraka (inspiração) e rechaka (expiração), do ha-tha yoga (yoga do sol e da lua). Note-se o impulso, vindo do plexo solar (região do umbigo correspondente, nas costas, ao gânglio lombar-espinhal ou, em terminologia sânscrita, manipura chakra) e chegando às extremidades dos dedos da mão esquerda e ao topo da cabeça da atuante.


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