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O Teatro
é originalmente um ritual destinado à celebração
das boas coisas da vida. Surgiu para aproximar pessoas
e provocar a exaltação do que é urgente
e positivo! Dentro desse espírito, nasceu o Teatro
Caleidoscópio, um projeto de pesquisa independente
da linguagem teatral, que toma
emprestada a dinâmica do caleidoscópio para
orientar o trabalho biomecânico do ator e situá-lo
expressivamente no espaço cênico através
do uso vital de seu potencial físico (corpo, voz,
respiração...) e de suas energias internas
(pensamento, sensibilidade, intuição, sinceridade...).
O Teatro Caleidoscópio é uma metáfora.
Ou um viés poético através do qual
o fenômeno teatral se funde nos espelhos do caleidoscópio.
Uma associação casual que me deu o que pensar.
Eugênio Barba, em palestra proferida no Brasil,
fez associação semelhante. O antropólogo
italiano, que estuda o comportamento humano em situações
de representação formal, ressalta na atuação
dos atores orientais um certo grau de imprevisibilidade
gestual que se encarrega de manter a atenção
do espectador. E a compara à imprevisibilidade
contida naquelas pequenas peças que rolam dentro
do caleidoscópio para formar uma imagem.
Com o propósito de surpreender o espectador, a
fim de mantê-lo interessado em sua atuação,
o ator deve fugir do óbvio, desviar o leito dos
rios, traçando uma nova geografia cênica,
mais dinâmica, variada, levando no gesto seguinte
o elemento surpresa. Porém, a lição
do caleidoscópio para o ator não se encerra
aí. Além da imprevisibilidade, outros princípios
deste "brinquedo filosófico" podem ser
observados também na prática teatral, como
a ludicidade, a irreversibilidade, a expressividade, para
citar alguns. Podemos também levar para o âmbito
da cena a simbologia da circularidade, tendo em vista
que as formas caleidoscópicas, as mais tradicionais
ao menos, são produzidas num campo de visão
circular.
E aqui o estudo das mandalas, como círculos mágicos
que levam o indivíduo ao seu ser essencial, é
um caminho surpreendente para entender a necessidade de
plenitude existencial do ator. A descoberta da força
espiritual, em meio ao trabalho físico e mental,
confere ao ator responsabilidade no trato verdadeiro de
suas emoções. Podemos afirmar ainda que
a natureza fragmentária, cromática, vibratória,
expressiva e até mesmo dramática das imagens
caleidoscópicas está presente também
no corpo do ator-bailarino, quando direciona energias,
delimita áreas corporais e as combina harmoniosamente,
quando cria uma trajetória gestual e busca significados,
expressões, símbolos, conceitos, emoções
que possam exprimir as suas idéias. A dança
das imagens indica, portanto, outra dança, a dos
movimentos, direções e formas físicas
cambiantes.
A alternância das formas caleidoscópicas,
proporcionada pelo movimento giratório, pode ser
comparada às múltiplas possibilidades de
construção do corpo cênico, às
mudanças de estados interiores ou à sucessão
de movimentos e formas físicas construídas
pelo ator para narrar o enredo dramático de seu
personagem. Podemos também entender a dramaturgia
como um processo caleidoscópico quando espelhada
naquela seqüência de acontecimentos inusitados.
Estas associações todas inauguram um modo
particular e poético de entender os princípios
que regem a arte do ator e seu processo criativo.
As belas imagens além do visor são ao mesmo
tempo um estímulo à imaginação.
Podem parecer uma trilha romântica, arrebatadora,
como um imenso jardim circular de espécies raras
e exóticas, mas também uma assustadora vereda
mitológica, como a garganta de um titã.
Seja como for, aqueles círculos coloridos me levam
continuamente para o seu centro magnético e é
essa misteriosa expedição que me mantém
em constante movimento criativo.
Temos pretensões pacíficas. Interessa-nos
a convivência ética, o exercício livre
do respeito, o cooperativismo e o artista que revitaliza
a cada dia o seu poder inventivo, sua capacidade de reconstruir
poeticamente o mundo.
Tudo que é humano nos interessa. Seja de terra
ou mármore, nosso palco é varrido todos
os dias, nossos incensos arrastam as más companhias,
na calmaria nossa alma trabalha...
Bem- vindo ao Teatro Caleidoscópio!!!
André Amaro
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